Quando nós olhamos para a Palavra de Deus, a nossa tendência é achar que os exemplos que nós temos lá são apenas exemplos positivos, exemplos bons e que devem ser seguidos. Todavia, nós precisamos entender uma coisa: Deus não chama pessoas perfeitas para fazer a Sua obra; na verdade, Deus chama pessoas simples, pessoas cheias de falhas e limitações, assim como você e eu para fazermos a diferença. E é por isso que na Bíblia nós encontramos exemplos que precisam ser seguidos, mas nós também encontramos exemplos que não devem ser seguidos de jeito nenhum. Nós aprendemos com os acertos de homens de Deus e nós aprendemos também com os seus erros. É dessa forma que funciona.
E, nós iremos falar sobre os erros de um homem chamado Eli. No capítulo 1 de 1Samuel nós vemos o clamor de uma mulher chamada Ana por filhos. A Bíblia diz que durante muitos anos ela subiu até Jerusalém com o seu marido Elcana para oferecer sacrifícios a Deus e ela sempre fazia uma oração pedindo um filho ao Senhor. Até que um belo dia, Deus respondeu a sua oração e ela ficou grávida daquele viria a ser o grande profeta Samuel.
Só que tem um detalhe importante nessa história: antes de Ana ficar grávida de Samuel, no momento de maior angústia, ela fez um voto (ELA DISSE): “Deus, se o Senhor me abençoar e me der um filho eu o devolverei para o Senhor!”. E, foi justamente isso o que aconteceu: a Bíblia diz que Ana deu a luz a um menino, colocou o nome dele de Samuel e depois que a criança desmamou ela o entregou nas mãos do sacerdote. E, agora, eu te pergunto: qual era o nome desse sacerdote? Eli.
Eli foi sacerdote do Senhor durante mais ou menos 40 anos em Israel e foi ele quem cuidou de Samuel nos primeiros anos da sua vida. Para vocês terem uma ideia, foi Eli quem ensinou Samuel a ouvir a voz do Senhor; foi Eli quem ensinou Samuel a orar; a ler a Palavra de Deus; foi Eli que ensinou praticamente tudo o que Samuel precisava saber para ser um grande homem de Deus. Então, por um lado Eli foi bênção do Senhor, ele foi instrumento de Deus na vida de Samuel; só que, por outro lado, Eli cometeu erros que nós não devemos cometer.
Na verdade, Eli foi bem sucedido em muitas coisas, mas ele fracassou como pai. E, o resultado desse fracasso COMO PAI nós podemos ver nas atitudes dos seus próprios filhos. O versículo 12 diz assim: “12 Eram, porém, os filhos de Eli filhos de Belial e não se importavam com o SENHOR;”.
Antes de nós comentarmos esse versículo, é importante entendermos a diferença entre HERANÇA e LEGADO. Embora em muitos dicionários essas duas palavras sejam sinônimas, existe uma pequena diferença que é muito importante para nós. De acordo com o Dicionário, “herança representa todo bem móvel ou imóvel que recebemos de alguém, quer seja por testamento ou por direito no ato de sua morte”. Em outras palavras, herança nos fala de coisas naturais, são bens que nós deixamos para os nossos filhos depois que nós morremos. Agora, legado nos fala de princípios, de valores, de exemplo de vida, de referencial.
Herança é algo que um dia acaba, se perde (Você pode receber 1 milhão de dólares, se você não for um bom administrador, uma hora esse dinheiro vai acabar); agora, legado é algo que você recebe e que permanece por toda a vida. Talvez, você não vai conseguir deixar uma boa herança para os seus filhos, mas deixa eu te dizer uma coisa, não se sinta acusado por causa disso, porque no final das contas o que realmente importa é o legado. Não adianta nada você deixar 1 milhão de dólares de herança e não deixar legado nenhum para eles. Não adianta nada você deixar uma Bíblia de herança para os seus filhos, se você não deixar um legado de fé para eles.
Existem pais que não terão uma conta bancária recheada de dinheiro para deixar como HERANÇA, mas deixarão um exemplo extraordinário de vida, como LEGADO. Existem pais que não terão um carro importado para deixar como HERANÇA para os seus filhos, mas que deixarão um exemplo poderoso de fé, como LEGADO. Existem pais que não terão uma casa para deixar como HERANÇA, mas que deixarão como LEGADO, um exemplo magnífico de amor a Deus e ao próximo. Como é que você quer ser lembrado pelos seus filhos depois que você morrer? O que é que você quer que escrevam na sua lápide depois que você morrer? Isso nos fala de legado!
Um dos principais legados que nós temos que deixar para a próxima geração é a nossa fé e o nosso temor a Deus. E existe uma grande diferença entre MEDO e TEMOR. Têm pais que têm levado os seus filhos a terem medo de Deus e não temor de Deus e isso está errado. Porque o medo nos afasta do Senhor e o temor não (ILUSTRAÇÃO: Por exemplo, eu morro de medo de cachorro bravo, eu não chego perto de jeito nenhum. Você pode falar o que for, que é bonzinho, que não morde, se eu chegar na sua casa e tiver um cachorrão lá eu vou pedir para você prender ele. Porque eu tenho medo do que o cachorro pode fazer comigo eu não me aproximo dele. Têm pais que têm ensinado os seus filhos a terem medo de Deus. E, o resultado é que ao invés deles correrem para Deus, eles vão querer correr de Deus. Agora, temor me leva a me aproximar do Senhor, o temor me leva a me relacionar com Deus, porque eu sei que Ele me ama. Só que eu não faço isso de qualquer jeito. O temor me leva a me relacionar com respeito e com reverência). E, isso era tudo o que os filhos de Eli não tinham.
O versículo 12 de 1Samuel 2 diz que os filhos de Eli eram filhos de Belial e que não se importavam com o Senhor. Na mitologia cananéia havia um figura chamada Belial e ele era o principal inimigo do povo de Deus aqui na terra. Inclusive, alguns estudiosos dizem que Belial era, na verdade, o demônio da arrogância e da loucura. Então, dizer que alguém é filho de Belial é como dizer que essa pessoa é filha do diabo, inimiga de Deus. E, foi justamente dessa forma que os filhos de Eli foram chamados.
E, se você continuar lendo a história à partir do verso 15, você vai descobrir o porquê. Os versos 15 e 16 dizem assim: “15 Também, antes de se queimar a gordura, vinha o moço do sacerdote e dizia ao homem que sacrificava: Dá essa carne para assar ao sacerdote; porque não aceitará de ti carne cozida, senão crua. 16 Se o ofertante lhe respondia: Queime-se primeiro a gordura, e, depois, tomarás quanto quiseres, então, ele lhe dizia: Não, porém hás de ma dar agora; se não, tomá-la-ei à força.” Olha só que coisa terrível que eles estavam fazendo. A LEI DO SENHOR DETERMINAVA COMO É QUE OS SACRIFÍCIOS DEVERIAM SER FEITOS. O pecador chegava diante do sacerdote, o sacerdote avaliava o animal e caso o animal fosse aprovado, ele era morto. Depois de morto, esse animal deveria ser cozido e depois de cozido, os levitas vinham com um garfo de 3 dentes, enfiavam dentro do caldeirão e pegava a parte deles. E, o curioso é que eles só podiam pegar algumas partes específicas do animal, como bucho, a espádua (Que era o ombro do animal) e a queixada (A mandíbula). Ou seja, nada de picanha para os levitas. E, o que é que os filhos de Eli faziam? Eles vinham antes do animal estar cozido e pegava o que eles queriam, eles pegavam a melhor parte e profanavam a oferta que as pessoas estavam levando para Deus. E, caso alguém tentasse impedir, eles tomavam a força.
E, não pára por aí não, olha só o que nós encontramos no versículo 22: “22 Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação.”. Essa daqui é a parte mais cabeluda de todas, a Bíblia diz que os filhos de Eli profanavam o templo se deitando com várias mulheres (Você consegue imaginar a situação? Um lugar que era para ser santo, um lugar que era para ser separado somente para as coisas do Senhor havia se tornado um lugar de orgias). Perceba que eles não tinham temor nenhum pelas coisas de Deus, POR ISSO ELES ERAM CHAMADOS DE FILHOS DE BELIAL. E, o mais triste de tudo é o que está escrito no começo do versículo 23: “23 E disse-lhes [Esse daqui é Eli falando com os filhos]: Por que fazeis tais coisas? Pois de todo este povo ouço constantemente falar do vosso mau procedimento.”. Nesse versículo nós vemos Eli tentando alertar os seus filhos, só que eles não deram ouvidos porque já era tarde demais.
E, aqui está um dos possíveis grandes erros de Eli. Ele não ensinou os seus filhos o caminho certo quando eles eram pequenos e por isso eles estavam agindo daquela maneira quando adultos. A Palavra do Senhor diz em Provérbios 22:6: “6 Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” Em outras palavras o que a Bíblia está dizendo aqui é que existe um tempo certo para instruirmos os nossos filhos! Se nós queremos ver os nossos filhos adultos servindo a Deus, no temor do Senhor, nós precisamos ensiná-los desde crianças. Coisa que muito provavelmente Eli não fez! ELI PERDEU O MINISTÉRIO DELE PORQUE FOI NEGLIGENTE, PORQUE NÃO EXORTOU QUANDO TINHA QUE EXORTAR, PORQUE NÃO DISCIPLINOU QUANDO TINHA QUE DISCIPLINAR!
Nós sabemos que depois de adultos cada filho tomará as suas próprias decisões e eles serão responsáveis por essas decisões. Mas, a grande questão para nós hoje é: será que nós ensinamos o caminho certo ou nós fomos negligentes? Será que nós ensinamos aos nossos filhos como tomar boas decisões? Quantas vezes nós falamos que não têm mais crianças ou filhos como antigamente. Mas, o que acontece é que nós não temos pais como antigamente. Pais que ensinam, pais que disciplinam, que têm paciência de ensinar 100 vezes a mesma coisa se for preciso (E não só entregar um celular na mão da criança para ela parar de perturbar), pais que mostram um bom caráter e valores. Deus confiou filhos em nossas mãos e nós somos responsáveis por ensiná-los e moldar o caráter deles. E EU VOU TE DIZER MAIS: o tempo da infância dos nossos filhos é a fase mais importante de todas, porque é o momento em que eles estão mais abertos a aprender e é quando nós podemos influenciar mais.
E, por fim, um outro erro que Eli cometeu está no versículo 29: “29 Por que pisais aos pés os meus sacrifícios e as minhas ofertas de manjares, que ordenei se me fizessem na minha morada? E, tu, por que honras a teus filhos mais do que a mim, para tu e eles vos engordardes das melhores de todas as ofertas do meu povo de Israel?” Por mais que os filhos de Eli estivessem vivendo uma vida completamente torta, Eli estava honrando mais a eles do que ao próprio Deus (Na verdade, ele estava deixando o serviço da obra de Deus de qualquer jeito porque não queria remover os seus filhos). E, quantas vezes nós fazemos isso? Quantas vezes nós colocamos os nossos filhos numa posição que deveria ser só de Deus? Certa vez o pastor Naor falou que os filhos precisam ver os pais prostrados na presença de Deus. Em outras palavras, os nossos filhos precisam aprender que existe limite e que existe Alguém que está acima deles e que diante desse Alguém nós nos prostramos. ISSO FAZ PARTE DO LEGADO QUE NÓS TEMOS QUE DEIXAR PARA ELES!
Nos versículos 34 e 35, a Bíblia conclui a história dizendo que Deus levantaria alguém fiel: “34 Ser-te-á por sinal o que sobrevirá a teus dois filhos, a Hofni e Finéias: ambos morrerão no mesmo dia. 35 Então, suscitarei para mim um sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenho no coração e na mente; edificar-lhe-ei uma casa estável, e andará ele diante do meu ungido para sempre.” Eli foi infiel com o Senhor porque ele não exerceu com fidelidade a função de sacerdote e pai que Deus colocou para ele. Eli começou muito bem. Foi o homem que investiu na vida do grande profeta Samuel. Contudo, ele terminou mal. Que nós possamos ser fiéis a Deus, que haja fé, temor e honra no nosso coração e que esse seja o legado que nós vamos deixar para os nossos filhos. Que daqui a 50, 60, 70 anos, eles possam dizer de nós: “O meu pai era homem de Deus. A minha mãe era mulher de Deus. Tudo o que eu sei hoje eu aprendi com eles!”
